
Uma revisão publicada em 2026 no Journal of Clinical Medicine reuniu oito estudos que, juntos, envolveram 476 mil pessoas. Pessoas com periodontite — inflamação crônica da gengiva e dos tecidos que sustentam os dentes — apresentaram risco cerca de 56% maior de câncer de pâncreas. O achado se soma a um conjunto crescente de pesquisas que investigam como a inflamação da boca pode repercutir em órgãos distantes.
Uma revisão de 2024 sobre cânceres do sistema digestivo também encontrou um risco cerca de 35% maior de câncer pancreático. Os percentuais variam entre os estudos, mas apontam no mesmo sentido.
Como ler "56% a mais"
O câncer de pâncreas é pouco frequente na população em geral. Por isso, como o câncer de pâncreas é pouco frequente na população geral, um aumento relativo do risco pode corresponder a uma diferença pequena em números absolutos. Os próprios autores lembram que ainda são necessários mais estudos antes de qualquer mudança nas estratégias de prevenção ou de rastreamento.
Uma comparação ajuda a entender. Quem compra dois bilhetes de loteria em vez de um dobra a chance de ganhar, um aumento de 100%, e mesmo assim continua longe do prêmio. O valor do achado está em outro lugar: ele acrescenta mais uma peça à compreensão de que a inflamação crônica da boca não fica restrita à boca.
O que os cientistas investigam
Entre os mecanismos investigados estão a possível disseminação de bactérias associadas à doença periodontal para outros órgãos e os efeitos de uma inflamação crônica de baixa intensidade. Alguns estudos encontraram associação entre níveis mais altos de anticorpos contra a bactéria Porphyromonas gingivalis, ligada à periodontite, e a ocorrência da doença. Essa associação constitui uma pista biológica que justifica novas investigações sobre a relação entre a bactéria e o câncer pancreático.
Os estudos disponíveis ainda não avaliaram se o tratamento da periodontite altera esse risco. As informações apresentadas não substituem a avaliação médica. A saúde bucal tem benefícios já bem estabelecidos — sangramento, retração da gengiva e dentes que amolecem pedem avaliação de um cirurgião-dentista.
Sobre o Dr. Fernando Costa Jr.
É cirurgião-dentista (CRO-SP 38692), pioneiro no uso do laser Fotona na odontologia brasileira.
Mín. 16° Máx. 28°