
A restauração florestal, orientada apenas pelo carbono, começa a perder espaço para projetos capazes de comprovar o retorno da fauna, a proteção da água e a reconexão de paisagens fragmentadas. Na Mata Atlântica, onde 97% dos fragmentos de vegetação nativa têm menos de 50 hectares, conforme estudo com participação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o desenho de corredores ecológicos entre áreas isoladas passou a diferenciar ativos ambientais no mercado voluntário. A Future Climate Group, plataforma brasileira de soluções climáticas, aplica esse critério nos projetos da Originals, frente dedicada à restauração e à remoção de carbono.
A mudança acompanha a exigência crescente de compradores globais por ativos com integridade verificável. De acordo com a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), 836 organizações de 57 países ou territórios já se comprometeram a divulgar riscos e dependências ligados à natureza, entre elas instituições financeiras que somam mais de US$ 26 trilhões em ativos sob gestão. O International Sustainability Standards Board (ISSB), por sua vez, anunciou que usará as recomendações da força-tarefa como base para futuros requisitos de divulgação sobre o tema.
Na avaliação da Future Climate, esse cenário deve alterar a forma como o crédito florestal é precificado. O plantio de uma única espécie pode acumular carbono, mas não devolve funções ecológicas como polinização, dispersão de sementes e regulação hídrica. A metodologia da companhia examina cada projeto em sete camadas, que abrangem impactos socioambientais, integridade, monitoramento, gestão de riscos e relação com as comunidades, além da contabilidade de emissões.
Técnicas de plantio voltadas ao retorno da fauna
Para estimular a volta dos animais, a Originals planta espécies zoocóricas, cujas sementes dependem de aves e mamíferos para se dispersar, e trata a conexão entre fragmentos como estratégia de restauração da fauna. Ao oferecer frutos, essas árvores atraem dispersores que trazem sementes de remanescentes vizinhos e ampliam a diversidade da regeneração.
O papel desses animais tem base científica. Estudo publicado na revista Nature Climate Change em 2024, com pesquisadores da ETH Zurich e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), constatou que, na Mata Atlântica, aves frugívoras de maior porte se deslocam pouco em paisagens com menos de 40% de cobertura florestal, o que reduziu em 38% a biomassa estimada das florestas futuras. Após a implantação, a gravação de sons e as armadilhas fotográficas podem ser adotadas para monitorar a fauna com evidência rastreável.
Nascentes e segurança hídrica
O segundo eixo envolve a água. Os projetos priorizam a proteção de nascentes e a recomposição da vegetação em áreas de mananciais, onde a cobertura florestal favorece a infiltração no solo, a recarga dos aquíferos e a regularidade da vazão dos rios. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) elaborou um índice de prioridade que aponta microbacias cuja restauração é estratégica para o abastecimento das maiores regiões metropolitanas do bioma, que abriga cerca de 70% da população brasileira.
A companhia informa que a vinculação entre restauração e segurança hídrica regional amplia o interesse de setores cuja operação depende diretamente da disponibilidade de água, como saneamento, agronegócio e indústria.
Conectividade e exigências de reporte
O terceiro critério é a conectividade de corredores de fauna. Nos clusters de Mata Atlântica da Originals, as áreas restauradas são posicionadas para ligar remanescentes florestais a Unidades de Conservação, o que viabiliza o deslocamento de animais e o fluxo genético entre populações isoladas. Fragmentos pequenos e distantes entre si tendem a perder espécies ao longo do tempo, já que populações sem contato ficam mais vulneráveis à endogamia, a doenças e a eventos climáticos extremos. Segundo a Future Climate, o desenho espacial é definido antes do plantio, a partir de análise de paisagem, para que cada hectare recuperado contribua para reduzir a distância entre manchas de floresta.
Esses indicadores dialogam com a abordagem LEAP da TNFD, que orienta empresas a localizar, avaliar, analisar e preparar a resposta às suas interfaces com a natureza. Também se conectam aos Princípios Fundamentais de Carbono (CCP, na sigla em inglês) do Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM), que incluem salvaguardas e benefícios de desenvolvimento sustentável. O conselho aprovou a metodologia VM0047, da Verra, para florestamento, reflorestamento e revegetação, o que permite que créditos dessa categoria recebam o selo CCP.
A diferenciação já se reflete no mercado. Relatório da Ecosystem Marketplace, iniciativa da organização Forest Trends, identificou que créditos de projetos com ao menos uma certificação de cobenefícios foram negociados com prêmio médio de 78% sobre aqueles sem esse tipo de chancela. Para a Future Climate, a combinação de diversidade de espécies, proteção de recursos hídricos e conectividade tende a ampliar esse diferencial e a atrair investidores com mandatos de impacto em biodiversidade.
A Originals iniciou operações com cerca de 12 mil hectares distribuídos em sete regiões do Brasil e do México, com potencial para o plantio de mais de dez milhões de árvores, e projeta chegar a aproximadamente 15 mil hectares até 2035, de acordo com a empresa. Na leitura da companhia, a expansão desse portfólio depende de demonstrar, com dados mensuráveis, que a floresta restaurada voltou a operar como ecossistema, e não apenas como estoque de carbono.
Para mais informações, basta acessar: https://futureclimate.com/
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