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Febre amarela pode se espalhar com mais intensidade perto de metrópoles, mostra estudo da USP

Pesquisa da USP identifica expansão acelerada do vírus em áreas com presença de mosquitos e primatas

26/04/2026 às 08h15
Por: Redação Fonte: Secom SP
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Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram diferentes estratégias: coleta de mosquitos em vários níveis da floresta, monitoramento de primatas, análise genética do vírus e modelagem epidemiológica.
Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram diferentes estratégias: coleta de mosquitos em vários níveis da floresta, monitoramento de primatas, análise genética do vírus e modelagem epidemiológica.

Um estudo da Faculdade de Medicina (FM) da USP traz novas evidências sobre o comportamento da febre amarela no Brasil. Publicada como destaque de capa da edição de abril da Nature Microbiology, a pesquisa mostra que o vírus pode se espalhar com intensidade muito maior do que se imaginava em regiões próximas a grandes cidades.

A investigação analisou a dinâmica da infecção em primatas na região metropolitana de São Paulo, onde áreas urbanas convivem com fragmentos de mata. Nesse cenário, os pesquisadores identificaram que o número básico de reprodução (R₀) — indicador que mede o potencial de transmissão — pode chegar a 8,2. Em termos práticos, isso significa que uma única infecção pode dar origem a mais de oito novos casos em condições favoráveis.

O dado chama atenção por superar estimativas anteriores e indicar que, mesmo fora do ambiente urbano clássico, a febre amarela pode atingir níveis elevados de disseminação.

Ester Sabino, professora titular do Departamento de Patologia da FMUSP e uma das principais referências em doenças infecciosas no País, coordenou o estudo. “A transmissão pode ser muito mais intensa do que se imaginava, especialmente em áreas de transição entre floresta e cidade. Isso mostra que, uma vez introduzido, o vírus encontra condições para se espalhar rapidamente, o que reforça a importância de estratégias de vigilância contínua e da vacinação preventiva”, afirma a professora.

Rápida disseminação

Outro achado importante da pesquisa é que surtos podem ser desencadeados por uma única linhagem do vírus, que se espalha rapidamente ao encontrar condições favoráveis — como alta densidade de mosquitos transmissores e presença de hospedeiros suscetíveis.

O estudo também reforça o papel dos primatas não humanos, como macacos, no ciclo da doença. Esses animais funcionam como amplificadores do vírus na natureza e, ao mesmo tempo, como um sistema de alerta precoce: a morte de primatas costuma ocorrer antes dos primeiros casos em humanos.

Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram diferentes estratégias: coleta de mosquitos em vários níveis da floresta, monitoramento de primatas, análise genética do vírus e modelagem epidemiológica. Essa abordagem integrada permitiu reconstruir com precisão como ocorre o chamado spillover, quando o vírus passa de animais para humanos.

Prevenção depende de antecipação

Os achados dialogam diretamente com desafios contemporâneos. A expansão das cidades sobre áreas naturais, somada às mudanças climáticas, tem aumentado o contato entre humanos, mosquitos e animais silvestres — criando condições favoráveis para a emergência de doenças.

Embora o Brasil não registre transmissão urbana de febre amarela há décadas, o estudo sugere que o risco de reemergência não pode ser descartado.

Para especialistas, o principal recado da pesquisa é a necessidade de agir antes que os surtos atinjam humanos. O monitoramento de primatas, aliado à vigilância de mosquitos e à análise genética do vírus, pode ajudar autoridades a antecipar campanhas de vacinação e conter a disseminação da doença.

Em um cenário de crescente pressão ambiental e urbana, a febre amarela deixa de ser apenas uma preocupação de áreas remotas e passa a exigir atenção também nas bordas das grandes cidades.

“Temos hoje ferramentas para identificar precocemente a circulação do vírus e agir antes que os casos em humanos aumentem. O desafio é transformar esse conhecimento em ações rápidas, especialmente na ampliação da vacinação em áreas de risco”, concluiu Ester Sabino.

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