
A companhia teatral francana Cia. Entre Nós venceu o Edital de Patrocínio CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) 2026-2027, a primeira da cidade a conseguir tal feito. A disputa é uma das mais relevantes e concorridas do Brasil, e a atual edição teve mais de sete mil projetos inscritos.
Desses, 103 propostas foram selecionadas em diversas áreas após um rigoroso processo de análise, sendo 43 na categoria Arte Cênicas. Entre esse último grupo, está o espetáculo da Cia. Entre Nós, “Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela”, obra de dança-teatro que aborda a violência contra a mulher a partir de uma poética sensível, contundente e profundamente comprometida com o tema.
A circulação contemplada pelo edital prevê atividades totalmente gratuitas, que poderão ocorrer em até cinco unidades do CCBB: Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Cada unidade negocia individualmente com a peça aprovada no edital; a companhia francana já confirmou presença em duas delas, mas ainda não pode divulgar quais são.
Como contrapartida pela conquista do edital, a Entre Nós vai não só realizar apresentações do seu espetáculo, mas também oficinas de dança e o bate-papo “DESfazendoNÓS”, aprofundando o diálogo com o público, entre outras intervenções a serem negociadas ainda.
A conquista chega em um momento simbólico: em 2026, o espetáculo completa 10 anos de existência, consolidando-se como a obra francana de dança-teatro em atividade contínua há mais tempo em cartaz. Já a Cia. Entre Nós completa 10 anos em 2025, fundada e dirigida pelos artistas francanos Daniela Rosa e Rafael Bougleux, que também assinam o conjunto das criações do grupo.
Sobre “Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela”
“Quando olho para trás e percebo que a Cia. Entre Nós completa 10 anos em 2025, é impossível não sentir o corpo inteiro vibrar”, assim Daniela Rosa, bailarina, criadora e cofundadora da companhia, sintetiza a trajetória do grupo.
A história começa em 2015, quando ela e Rafael Bougleux — artistas de formações distintas — decidiram assumir a fricção entre dança e teatro como campo de criação. Dessa investigação intensa, nasceram os dois espetáculos da companhia (veja abaixo), ambos contemplados por três editais PROACs (montagem e circulação).
“Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela” foi o primeiro grande passo do grupo. Livremente inspirado em casos reais e em obras de artistas como Suzanne Lacy, Leslie Labowitz, Nan Goldin, Dione Carlos e Nina Simone, o espetáculo “Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela” é a primeira produção da Cia Entre Nós, da cidade de Franca (SP).
Em cena temos a bailarina Daniela Rosa, o ator Rafael Bougleux, os músico Renata Prado e Wendel Dima e direção de Fernando Gimenes. O espetáculo evoca a todo tempo a cumplicidade do espectador, mostrando como não sabemos reagir à violência doméstica cotidiana das relações amorosas. Um casal ouve jazz enquanto vivencia um processo artístico de investigação sobre a violência contra a mulher. Uma mulher e um homem em estados de afeto e colisão, para que seus corpos revelem os limites de uma relação.
O espetáculo ganhou força ao fazer uma turnê pelo interior paulista, encontrando públicos diversos e testemunhando o impacto que a arte pode produzir ao tocar temas silenciados. O trabalho recebeu reconhecimentos importantes, como o Prêmio Denilto Gomes 2016 pela trilha sonora com arranjos de Larie (artista/cantor com residência em Portugal) e participações no Festival Nacional de Teatro de Ribeirão Preto, no Território SESI de Arte e Cultura, na SESI Viagem Teatral e em programações do Centro Cultural Banco do Brasil.
“Persistir em um espetáculo por 10 anos não é comum. Persistir em um espetáculo que trata da dor e da força das mulheres é ainda mais necessário”, ressalta Daniela. “Falávamos sobre a violência contra a mulher — tema tão urgente, tão próximo, tão dolorido — e levamos esse trabalho para aproximadamente vinte cidades do interior paulista. E foi ali, no encontro com essa diversidade de público, que percebi que a arte pode mesmo fazer rachaduras nos muros da indiferença”.
Ela acrescenta que a manutenção do trabalho só foi possível graças a editais públicos e parcerias com artistas, grupos e espaço culturais como o Ponto de Cultura Espaço Nulo, que garantiram ensaios, circulação, diálogos com o público e condições mínimas de continuidade — redes e politicas que, segundo ela, “mantêm vivas as obras que o mercado isolado não sustenta”.
Sobre a Cia. Entre Nós
Fundada em 2015, em Franca (SP), pela bailarina Daniela Rosa e pelo ator e diretor Rafael Bougleux, a Cia. Entre Nós desenvolve pesquisas nas interseções entre dança, teatro, performance e intervenção urbana. Com presença contínua em processos formativos, festivais e ações culturais pelo estado de São Paulo, a companhia se destaca por criar obras que tensionam a relação entre corpo, política e poética.
A companhia mantém em repertório dois espetáculos — “Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela” e “[Entre] Distâncias” (com direção de Gustavo Sol) — além de uma série de intervenções cênicas criadas especialmente para espaços públicos, galpões desativados, praças e outros ambientes não convencionais.
Daniela sintetiza a década da companhia como um gesto de resistência. “Dez anos de companhia não são apenas anos de arte: são anos de insistência, de encontros transformadores, de parcerias que fortaleceram nossas raízes. Seguimos criando porque ainda há muito a dizer, muito a mover, muito a transformar”, finaliza.
Teaser da peça:
https://www.youtube.com/watch?v=s231PRYdvTA
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