Encontramos no capítulo 18 do Evangelho de Mateus um discurso de Jesus sobre a vida comunitária. Vários temas são abordados: a humildade, o escândalo causado aos pequenos, a correção fraterna, a oração e o perdão.
Jesus constituiu com os discípulos uma família, marcada pela amizade, amor e pela convivência fraterna. Foi um tempo de aprendizado, que inspirou os discípulos a repetir o mesmo estilo de vida e de relacionamento que o Senhor viveu com o Pai e com eles. Deveriam praticar o amor e a comunhão do mesmo modo que viveram com Jesus. Esta é a marca e a identidade da vida cristã: é o amor fraterno que sustenta e conduz a comunidade.
Mas a comunidade é formada por pessoas, com suas qualidades e suas fraquezas. As limitações humanas alcançam também aqueles que têm fé. Por isso, as tensões são naturais e colocam cada um diante de sua realidade de pobreza e a necessidade de tomar as medidas adequadas de oração, de diálogo, de paciência e tolerância, de esforço e abertura ao perdão para a superação das crises e a luz para se reencontrar a unidade perdida.
Jesus falou da importância da correção individual fraterna, do acordo e da comunhão em seu nome (cf. Mt 18,15-20). O profeta Ezequiel já havia pregado sobre o dever e a responsabilidade de se corrigir quem errou (cf. Ez 33,7-9), pois Deus, com certeza, perdoa e acolhe de volta o pecador arrependido. Quando algum membro da comunidade comete uma falta, todo o corpo sofre as consequências. Como curar as feridas? A correção fraterna e cheia de misericórdia é o remédio.
São fundamentais alguns passos no exercício da correção fraterna. Primeiro, ir à procura de quem errou, não importa a falta cometida, o que vale é a atitude de acolhida e misericórdia. É uma correção pessoal, particular, sem barulho. Este primeiro passo evita expor pessoas a constrangimentos. Se o irmão que errou ouvir a correção e se emendar, é a comunidade quem ganha. Se o irmão não der ouvido, a situação deve ser resolvida com algumas testemunhas. Tudo deve ser feito para que o mesmo não se perca. Caso não deem certo os passos, a situação deve ser resolvida com a participação da Igreja. Mas tudo deve ficar dentro da comunidade eclesial. Se a pessoa persistir no erro, deverá ser considerada como um "pagão", ou "pecador público". Jesus conviveu e tomou refeições com os pagãos e publicanos. Por isso, tratar o pecador assim, é continuar insistindo para que volte a fazer parte da comunidade.
A correção entre os irmãos e irmãs da comunidade é uma das maneiras de se viver a fraternidade. É possível fazer uma pessoa tomar consciência de suas limitações e dos seus erros, mesmo sendo difícil, e ao mesmo tempo ajudá-la a encontrar a força e o ânimo para a superação e descobrir suas capacidades de amor (ágape) a Deus e ao próximo, nossa única divida e o cumprimento perfeito da Lei (cf. Rm 13,8-10).
O mandamento novo deixado por Jesus dá sentido à vida, pois o ser humano só se realiza pelo exercício do amor recebido e doado. Só amadurecemos a nossa personalidade quando sabemos doar e conviver com os outros, com as diferenças e as particularidades, no exercício do amor, nossa vocação fundamental.
O amor fraterno é um exercício que exige ultrapassar a nós mesmos, se não temos o alimento espiritual necessário, curvamo-nos na comodidade e na segurança pessoal, ou nos refugiamos em outras coisas. Precisamos da graça de Deus.
"Senhor, que a tua Palavra transforme a nossa vida, queremos caminhar com retidão na tua luz!"
Dom Paulo Roberto Beloto.