Neste sábado, 19 de julho, a cidade de Franca recebe o espetáculo "Raiva – nós temos um cão que morde", uma celebração dos 10 anos da Companhia DeSúbito, fundada pela dramaturga e atriz Carla Zanini em parceria com Ricardo Henrique. A apresentação ocorrerá no SESC Franca, marcando um retorno significativo para Zanini, que deixou a cidade em 2008 para cursar Artes Cênicas na USP e, no ano seguinte, ingressar na renomada Escola de Arte Dramática (EAD/USP). Foi nesse período de formação que ela e Ricardo Henrique, também francano e egresso da EAD, solidificaram a parceria que resultaria na criação da companhia em 2015. O primeiro espetáculo, "Casa de Nuvem Branca", dirigido por Ricardo e com Carla em cena, foi o pontapé inicial para uma trajetória marcada por diversos projetos e uma pesquisa contínua de linguagem.
"Raiva – nós temos um cão que morde" é descrita como um thriller cômico com humor ácido, que explora a violência nas relações humanas e sociais, partindo de uma situação aparentemente banal para expor as camadas da agressão simbólica, física e institucional presentes no cotidiano. A inspiração para a peça veio de um acontecimento real: em 2018, um cachorro mordeu uma criança em um café em frente à casa de Carla. A partir desse incidente, a dramaturga observou como uma situação se tornou um catalisador para uma escalada de violência e polarização. "Essa história, ela vem de um acontecimento real que aconteceu na frente da minha casa. Isso ali deu uma escalonada muito rápido, a gente presenciou", relembra Zanini.
A trama central acompanha duas irmãs, uma professora e uma artista, que tentam abrir um espaço cultural em um cenário desafiador para a cultura e a educação no Brasil. A personagem da professora enfrenta um período de ebulição na escola, em meio a manifestações, enquanto a irmã lida com as dificuldades inerentes ao universo artístico. O cachorro, nesse contexto, surge como uma metáfora para a violência cotidiana que pode escalar rapidamente, descontrolando as situações e levando os indivíduos a se tornarem agentes da própria violência. "Esse cachorro ele vem num lugar bem de metáfora mesmo, dessa violência do cotidiano e que ela escalona muitas vezes assim, a gente ter controle e até o momento em que a gente pede qual que é a nossa razão", explica Carla, traçando um paralelo com o filme "Relatos Selvagens". Ela aponta que o dia a dia moderno, com suas cobranças, tragédias e a influência das redes sociais, contribui para essa espiral de raiva, onde "todo mundo está suscetível" a ser afetado e, muitas vezes, repassar a agressão.
A escolha do humor ácido é intencional para abordar temas tão complexos. "Eu costumo brincar que assim, eu acho que a vida ela é uma grande mistura de gêneros, porque a nossa vida é uma grande mistureba", comenta Carla. Ela acredita que o riso tem o poder de desarmar o público, permitindo que assuntos sérios sejam absorvidos sem resistência. "Muitas vezes o riso ele dá uma, ele desarma a gente para que a gente consiga sem perceber, olhar para algumas coisas", afirma. A peça, que mescla terror, suspense e elementos patéticos da condição humana, inclui uma cena em que uma professora, transtornada pela situação, decide "botar fogo na escola para destruir tudo e começar de novo", um ato recheado de humor. Essa mistura de linguagens, segundo Zanini, "ajuda a mudar a nossa percepção sobre as coisas" e torna a experiência mais envolvente.
"Raiva – nós temos um cão que morde" é o segundo espetáculo de uma trilogia da Companhia DeSúbito que investiga a violência. O primeiro, "Afeto", lançado em 2023, abordou a violência de gênero, enquanto o terceiro, "Coragem", previsto para 2026, focará na violência institucional. Embora as histórias sejam independentes, elas se conectam pela temática da violência, pela linguagem de thriller cômico e pelas protagonistas femininas fortes e complexas. "São personagens femininas, protagonistas femininas que têm ali suas atitudes polêmicas e libertárias, digamos assim", destaca Carla. O elenco conta com nomes renomados como Renata Gaspar e a aclamada Jorjette Fadel, que Carla descreve como a "Fernanda Montenegro do teatro". A formação desse elenco é resultado da rede de contatos que Carla e Ricardo construíram ao longo dos anos no meio teatral paulistano.
O retorno a Franca para comemorar uma década de trabalho é motivo de grande emoção para os fundadores da companhia. "A gente tá muito emocionado, porque é isso, eu saí, o Ricardo saiu no mesmo ano que eu para São Paulo, a gente foi junto para lá em 2008", conta Zanini. A oportunidade de apresentar "Raiva", um trabalho que consideram de alta qualidade artística e que foi bem recebido em São Paulo, em sua cidade natal e no novo SESC, representa um momento de dupla celebração. "É uma honra, porque Franca precisava disso, de um lugar como esse", afirma Carla, enfatizando a importância de espaços culturais de qualidade para a formação de público. Ela também adiantou que, em agosto, retorna ao SESC Franca com "Belmira", um solo que escreveu e dirigiu.
Sobre o impacto da inteligência artificial no teatro, Carla Zanini demonstra incerteza, mas vislumbra uma possível revalorização da experiência teatral. Embora reconheça que a IA veio para inaugurar uma nova era em todas as áreas, ela questiona se, em meio a tanta digitalização, o teatro não se tornará um refúgio para uma "experiência real e concreta". Para o futuro, a Companhia DeSúbito almeja retornar com mais frequência a Franca, trazendo não apenas os espetáculos da trilogia, mas todo o seu repertório, como "Coisas que você pode dizer em voz alta". A luta pela arte, marcada por muito amor e suor, continua, e a parceria entre Carla Zanini e Ricardo Henrique promete trazer ainda muitos trabalhos significativos para o público francano e além.
SERVIÇO
Espetáculo: Raiva – nós temos um cão que morde
Data: 19 de julho (sábado)
Horário: 19h30
Local: Sesc Franca - Av. Doutor Ismael Alonso Y Alonso, 3071
Ingressos: Venda na bilheteria do Sesc e www.sescsp.org.br
Duração: 75 minutos
Classificação indicativa: 14 anos